RESUMO
O multiculturalismo no ensino da arte:
Considerar as obras de arte como geradoras de experiências estéticas, possibilita aproximar-se das borradas fronteiras entre as diferentes formas de arte e cultura de uma maneira diferente e mais enriquecedora do que aquela baseada em critérios classificadores tradicionais.
O pensamento de Geertz (1983) nos mostra que o interessante da obra cultural não é seu caráter prescritivo, definidor de um estilo de vida,mas a constante interação sistêmica com todas as áreas simbólicas que a compõe, sejam vindas di interior de seus personagens, como da incorporação de elementos daqueles contextos culturais e simbólicos, cujos significados não são familiares. Não podemos dizer que há culturas fechadas, senão sistêmicas em continua e fluente interação, em que se cruzam imaginários, gerando constantemente novos significados e renovando incessantemente as relações.
Tudo é questão de mudança de foco – Focar na construção de sentido, nas aplicações, mais que nos valores ou traços culturais, nos coloca em posição muito melhor para abordar fenômenos culturalmente tão complexos como os que são vivenciados em praticamente todas as sociedades do mundo.
Acredito que é bom para as propostas multiculturalistas em educação, que nunca se perda de vista o questionamento sobre a origem dos valores que muitas vezes se apresentam como essenciais ou característicos de uma cultura, assim como sobre a posição que ocupam seus defensores no jogo das hegemonias sociais, políticas e econômicas presentes em seus contextos culturais.
Jacqueline Chanda em seu trabalho intitulado “Ver o outro através de nossos próprios olhos: problemas na educação multicultural”, a celebre educadora norte-americana lamenta a forma inadequada como a educação artística de seu pais incorporou elementos de outros contextos culturais, especialmente africanos, em seus estudos de arte. Concordo com Chanda em seu repudio ao fato destes produtos ou eventos artísticos serem analisados sem uma abordagem do contexto em que foram produzidos, no entanto Chanda vincula a legitimidade de qualquer interpretação desses produtos culturais com os respectivos significados de seus contextos.
Não é difícil concordar com algumas destas afirmações, mas, pelo menos duas questões escapam à educadora norte-americana:
A primeira é que considerar muitos desses produtos como arte já é uma ressignificação própria de formas culturais distintas, a maioria das vezes, do contexto em que esses produtos foram criados.
A segunda é quando falamos de “olhos do outro”, ou qualquer termo equivalente, referindo-nos a contextos culturais diferentes do nosso não estamos submetendo a críticas o jogo de legitimação das distintas vozes que, sem duvida, existe na comunidade de origem de tais produtos. Quando nos referimos ao outro como sinônimo de outra cultura, devemos nos perguntar: Quais são os significados de uma cultura?De seus lideres?Dos especialistas?Dos produtores?Dos usuários? Quais são as vozes legitimadas de cada cultura e quais são os mecanismos que a legitimam?Raramente essas questões são levadas em conta nas propostas de intervenção multiculturalista no ensino da arte, por serem muito criticas.
Aqueles que como Chanda, não acreditam nas essências culturais ou nos valores permanentes da cultura, mas sim em uma constante transformação e resignifação dos mesmos por seus usuários, deveriam mudar o foco do problema da idéia de permanência cultural para a interação dinâmica dos significados. Considero que as fronteiras interculturais estão indefinidas, porque quando focamos nesse jogo percebemos que as mudanças de sentido não ocorrem necessariamente próximas aos limites tradicionais entre as culturas, mas se dão com a mesma intensidade tanto no interior dessas fronteiras, como em seu contato fora delas.
Uma das principais funções que podemos outorgar ao ensino da arte centrado na experiência é o de possibilitar que todas as vozes sejam ouvidas, inclusive aquelas que as práticas tradicionais de ensino ignoram ou minimizam. Trata-se, portanto de romper as dinâmicas escolares tradicionais, que buscam perpetuar os discursos e as relações de poder já estabelecidos, favorecendo a presença curricular de algumas pessoas, em detrimento de outras, e assim perpetuar discursos de ralações de poder.
O Debate metodológico: A questão da interpretação.
A partir da concepção da arte como experiência e relato aberto, combinada com uma perspectiva critica da educação, podem ser, pelo menos três:
- o enriquecimento das “molas” da experiência estética e de vida;
- O jogo dialético e a redescrição ironista;
- O reequilíbrio entre análise e a emoção, através da pratica da leitura inspirada;
O enriquecimento das molas da experiência estéticas e de vida:
Na educação artística é decisivo, portanto, criar em torno dos estudantes, um ambiente culturalmente rico, e fazer da arte, e em geral de todo o conhecimento, um cenário onde se pode recriar testar e representar experiências de vida.
O jogo dialético e a redescrição ironista como fundamentos de uma nova atuação docente:
Ironista é para Rorty aquele que, na tarefa de conhecer, exclui toda a pretensão de fazer com a verdade. A postura do ironista em relação ás descrições e fatos da experiência é a de aceitar que não são historias vindas diretamente da realidade, mas apenas jogos de linguagem sobre a mesma.
Podemos dizer que um dos pilares do método ironista é a redescrição, convertida em uma espécie de “critica cultural”. O interessante sobre o ironista rotyano, é que oferece um bom material para tecer um novo perfil do educador artístico e fundamentar nossas praticas educativas de forma mais adequada ás diferentes condições sociais e culturais.A adequação de uma perspectiva ironista ao campo do ensino da arte, nos convida a repensar nossa idéia de interpretação e, sobretudo, de “compreensão” em nossa atuação como docentes.
Leitura inspirada: O reequilíbrio entre a análise e a emoção.
Tanto Dewey como Rorty, dá a tônica sobre a interação entre a obra de arte e a experiência de vida, considerando que esta ligação constitui a finalidade de nossa relação com as artes. Ambos indicam claramente que, depois da crítica analítica, chegou o momento de nos deixarmos levar sem medo para “vivenciarmos” as obras de arte, para nos envolver cognitivamente e emocionalmente com elas, desenvolvendo cada experiência estética. Indo para o campo específico da pratica educativa, considero que as estratégias de compreensão não devem ficar exclusivamente no nível analítico-cognitivo, como é habitual na perspectiva critica, também devem progredir simultaneamente no nível emotivo-estetico.
Da perspectiva pragmatista, o propósito da compreensão estética seria o enriquecimento da experiência, ao passo que análise deveria ficar em segundo plano. A analise deve servir para situar a obra em um contexto cultural, nunca para substituir ou reproduzir plenamente a experiência da obra de arte. Sendo assim ver obras de arte não é apenas tentar achar o seu significado, mas sim, vê-la á luz de outras obras, de outros textos, de experiências passadas ou de outras pessoas. Esta e a diferença entre o que Rorty chama de leituras metódicas - as que sabem exatamente o que querem de uma obra de arte – e as leituras inspiradas – ou seja,guiadas pelo “apetite por poesia”. As primeiras projetam o conhecimento do espectador sobre a obra analisada, já o segundo tipo de leitura consiste em se colocar diante das obras de arte disposto a querer algo que lhe estimule a mudar, melhorar, ampliar ou diversificar seus objetivos e assim, sua própria vida.
O debate sobre a finalidade da educação:
Os fundamentos estéticos, filosóficos e educativos trazem como conseqüência a necessidade de projetar nossos objetivos educacionais para alem da alfabetização visual, do conhecimento da arte. A finalidade do ensino da arte deveria ser criar competência, critérios e sensibilidade para fazer uso das experiências transmitidas pela arte ou pela cultura visual.
Buscar o significado dos produtos estéticos no seu contexto de origem, como sugerem algumas didáticas multiculturais, e apenas uma das possibilidades de trabalho oferecidas, nos estimula a tirar muito mais proveito de suas qualidades estéticas ou artísticas. Enquanto nós cultivamos nossa identidade, nos tornamos sensíveis à linguagem dos outros, nos equipando com uma bagagem cognitiva e afetiva.
O debate sobre o poder da arte e seu valor para a reconstrução social:
Ensinar a compreender as obras de arte não é, portanto, apenas desvendar os mecanismos de poder implícitos nas obras e, assim, libertar os indivíduos, e sim fornecer informações completas sobre os princípios, crenças e desejos alheios, de forma que esse conhecimento nos possibilite ser solidário ás causas justas. O ensino da arte é ideal para desenvolver uma identidade leve, casual, permeável e aberta á aceitação do outro, bem como, eficaz na transformação e reconstrução social. Não é através de um suposto exercício de ação direta da arte, mas sim,com a educação frente a desigualdade, que o ensino da arte pode contribuir com a reconstrução social.
Algumas conseqüências:
Repensar nossa atuação como educadores e os eixos de nosso trabalho são os grandes desafios que temos pela frente. Não é uma tarefa fácil em razão das próprias características do território onde devemos desenvolver nossa ação e pelo peso que ainda tem em nossa cultura o antigo imaginário escolar.
Talvez seja a hora de perceber que a escola de hoje, se não abrir suas portas e romper com seus costumes, no seu papel de cofre intransponível do conhecimento, de costas para a vida; não será o lugar mais apropriado para aproximar os estudantes do legado cultural e muito menos para tornar esse legado, parte do seu imaginário estético e útil para suas experiências de vida.
Heliana J. Peres